aureas tenebrae
singularíssimo plural

É muito remoto. Mas quase recordo que Luís Garcia de Medeiros existiu, ou pelo menos fez alguma coisa por isso, ou fizemo-lo nós. Aquilo que o sustentava, suponho eu à distância, era o especial envolvimento de Helder Macedo, José Sebag e eu próprio. Medeiros como que recorria às forças intelectuais e afectivas que nos ligavam, para se introduzir naquele quotidiano juvenil de noitadas, álcool e dedicação verbal. Pela dedicação verbal chegou ele a escrever poemas e textos (teria escrito?, pelo menos há páginas que não podem ser atribuídas a Helder Macedo, nem a José Sebag, nem a mim), mas que não parecem proceder de alguém autónomo e singular, senão a quem quer que seja vinculado e plural, alguém subtraído a momentos de outros, uma soma conseguindo ser — vê-se — um corpo unido dentro e fora. Medeiros roubava-nos a alma aos três?, que dúvida!, mas tão diferente era ele de nós que melhor é dizer tratar-se de um plagiador, oblíquo ou subtil, com o talento de inventar-se uma espécie de percepção pessoal das coisas e um uso particular dos nomes. Assim compôs ele a sua Canção — está escrita — com palavras às vezes flagrantemente nossas, mas usadas de modo tão peremptório ou esquivo, que apetece dizer: é a Canção de Luís Garcia de Medeiros. Mas, Deus meu, quanto plagiou ele de Helder, de Sebag e de mim (acontece não saber eu que mão riscou diversas linhas inteiramente da minha autoria, mas ainda assim ficou algo meu: «harpas de sombra», por exemplo, sim, reivindico estas harpas de sombra, e outas sombras e harpas), mas a dívida maior é para com Helder Macedo, e alguma para José Sebag (menos do que a Macedo e mais do que a mim). Tudo isto posso eu ver porque tenho à minha frente uma fotocópia do livro que ele não tencionava publicar. Quanto ao resto rarefaz-se-me a lembrança, menos quanto à sua intenção de não publicar nunca coisa alguma de seu, admitindo ser seu, o que tenho de admitir, dadas as considerações transactas. Mas a figura, a presença, os comportamentos, a biografia? João Rodrigues fez-lhe um retrato-caricatura à mesa de café, mas será ele? Não me lembro do rosto, da maneira, do movimento. Lembro-me, sim, do seu gosto excessivo pelo álcool, embora não me lembre de vê-lo alguma vez embriagado. Lembro-me que dizia amar Mozart, sobretudo as óperas, sobretudo Dom João. Que mais? Vivera em África, disse-me, e como toda a gente conhecia Paris e Londres. Vi-lhe um dia nas mãos um grosso volume sobre o barroco germânico, e tenho a certeza que lhe escutei, numa noite de muito álcool, uma frase curiosa: «O homem barroco é o homem que tem um medo activo da morte.» E de súbito, paro. Não seria Helder Macedo quem amava Dom João e a ópera? E Paris e Londres não era o gosto de todos? E o barroco alemão não foi uma fase inteira da minha vida? E o modo de ser rápido e agudo não era de Sebag? E o não querer publicar nunca não seria também do mesmo Sebag? Lá vem dos confins da memória, problemática, subsidiária de três pessoas, mas real em poemas escritos, uma personalidade dando por um nome, concreta no seu caderno de poemas inéditos. Eu não sei que fazer com ela. Façam outros o que entenderem. Os poemas estão aqui, e alguns fulguram, algumas passagens fulguram, uns punti luminosi poundianos. O caderno perdera-se, Helder Macedo indagou durante uns tempos, Sebag desapareceu, eu desinteressei-me. E de repente recebo de Paris, via Londres, a fotocópia. Pronto, cá estão os poemas. Mas para mim são a margem de algo central que me escapa. Quem era o autor da Canção? Um ponto de convergência de três outras pessoas, ponto onde eram vítimas ou, pelo contrário, onde um momento se fizeram voz junta e una — Medeiros foi o nosso mestre ou o nosso aluno tortuoso? Embora farejante, tacteante, vacilante — e impaciente por encontrar-se — a Canção é onde ele está, tão real e fictício como qualquer de nós, um aparecido vindo do desaparecimento de há tantos anos, vivendo enigmaticamente, ritmicamente, no lugar que lhe cabe (ou não lhe cabe): aí mesmo, nessa mesma Canção. Enterrem-no bem, de forma a não reaparecer. Ou deixem-no viver, assim como soube, por linhas tortas, com um punhado de diamantes falsos na mão direita-fechada-aberta.

Cascais, 1.4.98

Herberto Helder

in Luís Garcia de Medeiros, Noites, Lisboa, & etc, 1998; colaboradores: Helder Macedo, Herberto Helder, Bartolomeu Cid dos Santos, Maria de Medeiros, José Sebag, Vitor Silva Tavares.

 - Catherine ribeiro + Alpes - Jusqu' ce que la force de t'aime
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catherine ribeiro + alpes, «jusqu’à ce que la force de t’aimer me manque», paix, 1972

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lhasa, «la confession», the living road, 2003

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nina simone, «mr. bojangles», here comes the sun, 1971

luis manuel gaspar & michelle, 2000

fotografia © joão francisco vilhena

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leo ferré - les quat'cents coups
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léo ferré, «les 400 coups», les chansons interdites de léo ferré, 1961

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