aureas tenebrae
Danny - Cohen:
8 plays

danny cohen, «the fall», shades of dorian gray, 2007

raul brandão, os pescadores, lisboa, estúdios cor, 1957

capa de manuel correia

raul brandão, os pescadores, lisboa, estúdios cor, 1957

capa de manuel correia

raul brandão, os pescadores, lisboa, livrarias aillaud e bertrand, 4.ª ed., 1924
capa de alberto de sousa

raul brandão, os pescadores, lisboa, livrarias aillaud e bertrand, 4.ª ed., 1924
capa de alberto de sousa

[foz do douro]

A Foz está viva! Tenho‑a diante de mim, a Foz de outrora, a Foz que já não existe, a Foz dos mortos, com o movimento, os tipos e a paisagem. Lá em cima o Monte tinge‑se de sol, cá em baixo o rio tinge‑se de azul. A Cantareira, num cantinho, adormece — a grande fonte de granito doirado, a casa do António Luís, a nossa velha casa com os degraus de pedra, os varais das redes até à Corguinha lajeada de grossos burgos — e ao largo o farol. O mar embala o cabedelo. Uma luz como não há outra e que estremece com o movimento e os reflexos da água, um ar como não há outro e que ainda hoje respiro como a própria vida! Silêncio… A Foz vai doirando lentamente, ano atrás de ano, crestada pelo ar da barra, camada de sol, camada de salitre…

O que revivo mais profundamente? Revivo a expressão de uns olhos húmidos que me seguiam sempre, e compreendo que toda esta cor e este oiro que desapareceram e teimam em reluzir, correspondem a um momento único da vida em que se descobre o mundo que vai morrer e que se fixa por fim em saudade e ternura. É o que tenho mais pena de deixar quando sinto que me levam não sei para onde e cada vez para mais longe. Agita‑se então em sonhos o mundo que não existe, e os mortos adquirem uma expressão que é a da minha própria alma. Se isto é ternura, a ternura é o que há de melhor no mundo; se é saudade, a morte é o que há de melhor na vida.
A própria paisagem só depois que a perdi é que a entendi bem, talvez porque a amo mais. Diante de mim têm desfilado as maiores e as mais belas, mas há uma humilde que faz parte integrante do meu ser.

A vida passa e um momento da vida não passa mais — transforma‑se. E a aproximação da morte reveste‑o de outra cor. Por isso agora vejo tudo cada vez mais nítido… Vejo os buracos nos muros e os reflexos ao lume d’água que duram um momento e se renovam sempre. É o sol que lhes dá vida e os ilumina. São instantâneos. Movem‑se, somem‑se e dão lugar a outros. São agitados e doirados. Uma aparência, um jogo de luz, como as existências efémeras que passam e o sonho que não deixa vestígios e só um instante se desenha à superfície da vida…

Tudo dura o que duram os reflexos agitados. Só este rio imenso segue o seu curso inalterável e incessante para aquele mar profundo.

Raul Brandão, Os Pescadores [1923], edição de Vítor Viçoso e Luis Manuel Gaspar, prefácio de Vítor Viçoso, Lisboa, Relógio D’Água, Setembro de 2014

raul brandão, os pescadores, paris-lisboa, livrarias aillaud e bertrand, 1923

capa de alberto de sousa

raul brandão, os pescadores, paris-lisboa, livrarias aillaud e bertrand, 1923

capa de alberto de sousa

Marlene Dietrich - Sag mir wo die Blumen sind
22 plays

marlene dietrich, sag mir, wo die blumen sind, 1964

written by pete seeger
german translation by max colpet

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